palestra

Livros

O escritor foi chamado para palestrar para adolescentes. Falar das suas experiências e dividir lições. A plateia era formada por imberbes – sua maioria – e fãs – três, contando com a família. Ele era um autor recém-lançado e seu livro mais recente havia sido adotado pela escola. Vieram as perguntas costumeiras: “por que o narrador…” “por que o protagonista” “por que o capítulo…”. Mentira. Veio apenas a apatia e o silêncio após a palestra preparada pelos editores e papagaiada por ele. Aquela apatia que sempre sucede “alguém tem alguma pergunta?” no fim do falatório dos palestrantes. Ninguém quer dar uma de sabido. Mas sempre tem alguém que se incomoda com o silêncio. A mão levantada pergunta: “o que é preciso para escrever?”

É preciso alfabetizar-se. Alguns riem. Sério. Eles calam. Alfabetizar-se por inteiro, em todos os níveis. Deixar o alfabeto fazer parte dos seus sentimentos, da mesma forma que as notas musicais fazem parte de quem toca ou canta e as cores e formas de quem pinta ou ilustra. As letras, ou melhor: as palavras, são a primeira expressão dos seu pensamento e se ele não está alfabetizado, elas virão como repetição de outras pessoas, de coisas que já foram contadas ou já ditas e você não saberá transformá-las em algo interessante se não for alfabetizado na alma.

E como a gente se alfabetiza? Não é fácil. Comece lendo. Lendo muito. Lendo sem parar. Lendo tudo que vier à mão. Quando você já tiver algum fôlego, leia sobre quem escreve, quem escreveu. Leia sobre leitura, sobre o que é lido, sobre quem está lendo e porque lê. Leia de novo aquilo que você lera quando criança e releia a forma que você lê. Encontre o cânone. Sim: o cânone. Esse que você evita, chama de chato, de cacete, de velho ou ruim. Leia. Encare. A leitura não precisa ser boa, ela precisa mexer com você em alguma coisa. Precisa mudar algo dentro de si. Precisa criar incômodo. Leia A Odisséia, a Ilíada. Leia Machado de Assis, leia Rubem Braga, leia Veríssimo Pai e Filho e Espírito Santo. Leia Guimarães Rosa e leia Manoel de Barros. Leia os hispânicos, leia os lusos, leia poesia, prosa, conto, crônica, romances, épicos e sagas. Leia tudo de novo. Leia essas porcarias que serão esquecidas na semana que vem e leia as porcarias que ninguém consegue se esquecer. Leia aventuras, leia literatura de gênero, leia posts, tweets, comentários (meu Deus! Os comentários) de sites de notícias. Leia jornais, revistas, sites. Leia.

Em algum momento você terá a certeza que precisará escrever algo. Que escreverá algo que ninguém disse ainda, de uma forma que só você conseguiria enxergar ou contar. Que precisa dar sua visão sobre um assunto ou contar uma história que lhe tira o sono à noite. Nessa hora, você irá pegar um pedaço de papel e um lápis. Vai começar a escrever devagarzinho tudo o que está na sua cabeça. Ou fará tópicos, pontos de referência, linha do tempo, um mapa. Sei lá. Cada um faz de um jeito. Mas a necessidade de escrever será mais forte que qualquer outra coisa. Aí você vai transformar isso num post, num fanzine, num cartazete, num livro, blog, tweet, o caralho a quatro. E as pessoas não lerão. Mas você irá se empolgar e irá escrever de novo e de novo e mais uma vez e alguém irá dizer: você tem jeito para a coisa, pessoa!

Aí a coisa fica séria.

Você passará a achar que poderá viver disso. Que o que você coloca no papel, aquela parte da tua alma que você tanto burila para transformar em palavras, vale alguma coisa. Lhe digo: não vale. Lhe digo mais: é ruim. Lhe digo mais uma outra coisa: não vale, é ruim e já foi feito antes. Você não leu o suficiente. Você ainda não está alfabetizado.

Aí chega o antagonista da tua história. O tempo não dá saída para nós. Ou morremos, ou envelhecemos. Não tem meio termo aí. E a gente deixa esses desejos na gaveta, guardamos as ideias num caderno, paramos de escrever para nós paulatinamente e começamos a preencher planilhas, relatórios, formulários, apresentações de slides. Fazemos apresentações de resultados, de projetos, de implementações. “Crescemos” na corporação e passamos a ganhar dinheiro: a medida absoluta de valor para tudo. Quanto mais ganhamos, mais achamos que valemos. Que nossos valores são melhores, passamos a ter Opinião sobre tudo. Temos a visão da vida. Tudo está certo, está planejado. É só seguir esse caminho, esse curral para o abatedouro de almas que chamamos “vida moderna”.

Se fizemos tudo certo, em pouco tempo estamos coordenadores, gerentes, especialistas, técnicos em whatever, engenheiros, arquitetos, sócios advogados, gerentes júniores, gerentes seniores, diretores adjuntos, diretores, C-E-bullshit, presidentes de alguma porra.

Em casa, saímos da farra com centenas de amigos para a “balada” com dezenas. Do chope com meia-dúzia para o papo no WhatsApp com três. Dois, provavelmente. Se tivermos sorte, encontraremos pessoas legais com quem manteremos afetos mesmo após o fim dos relacionamentos. Com muita sorte teremos filhos com alguma (ou algumas) dessas pessoas. Mas os relacionamentos passam, acabam. E a fôrma é mais forte que o indivíduo. Se você não foi alfabetizado (ok: ou musicado, ou pintado, ou inventado, ou fotografado, ou idealizado), essa é a vida que está planejada. É o mundo. Seu mundo. Sua meta. Viagens nas férias (viajar é *tão* importante, né? #sqn!), apartamento financiado, móveis bonitos, cinema Blockbuster e rotina acolhedora, servida sempre às 20h, pontualmente.

Claro que esse cenário é para quem “se deu bem” na vida. A maioria de nós nem consegue passar pelo primeiro Chefão de Fase que é o Pagar as Contas todo Mês. O engraçado é que esse aí, paradoxalmente, tem mais chance de quebrar a quarta parede da vida e se reinventar. Mas estou saindo do trem de argumentos.

Mas digamos que alguém aqui consiga – de fato – passar essa barreira. Alguém que tenha – de fato – deixado as letras (ou as tintas, os sons, as formas, as invenções, as ideias) marcar o seu centro, em algo que lhe define, algo que lhe faça chorar copiosamente ao entrar numa livraria quando estava passando as férias em Lisboa ao ver uma edição de um determinado livro, de um determinado autor. Um livro ruim, fraco, menor, mas que teve a habilidade de deixar uma marca na sua alma quando você ainda não tinha tanta barreira pra si mesmo. E que, quando você o pega para conferir a edição, as páginas, a tipologia, você vai naquele pedaço que o destrói. Você é demolido naquele momento e tudo que lhe resta é se atirar ao chão, esmurrar o piso frio, as estantes, o vendedor, a esposa, os filhos, o gerente, os guardas que o levam preso, esmurra as paredes do automóvel para onde você é arremessado, esmurra os enfermeiros que lhe aplicam uma anestesia, um amansa-louco, morde a própria boca, cospe o sangue e os dentes quando lhe prendem na cela acolchoada e você só consegue pensar e berrar:

– O QUE FIZ COMIGO?

Nesse momento, sua história encontra o mágico. Talvez um médico ou médica que queira virar filme nacional quarenta anos depois da morte. Eles, ao invés de lhe entupirem de remédios para voltar à “normalidade”, lhe entregam um pedaço de papel, um lápis e você terá uma história para contar. A única história possível de ser contada. Neste momento você virou um escritor.

Ou então você entra num curso de Escrita Criativa, ou faz uma faculdade de jornalismo ou letras, cava um emprego nesses setores, se desilude, faz concurso público e segue a vida. Tanto faz.

Ninguém vai te ler mesmo.

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compasso

Senhor

O menino dorme, no colo, na rede, sem rodeios
O moço passeia na praça, cheio de galanteios
O velho chora pelo futuro que não veio
O homem-feito a todos impõe seu jeito

A vida? Essa dá suas voltas, sem freio.
Sabe que tudo vem e volta, sem destino feito.
O início é certo, o fim é derradeiro
O meio? Esse é o pai e mãe de todo anseio.

achismos

“Não pense. Se pensar, não fale. Se falar, não escreva. Se escrever, não assine. Se assinar, não se arrependa.” – (suposto) Mandamento da Cúria Romana.

Um amigo querido (e ex-chefe) me ensinou esse mesmo dito como um “ensinamento budista”. Dizia: “não pense; se pensar, não fale; se falar, não aja; se agir, assuma, responsabilize-se.”

Como toda frase de efeito, serve para “justificar” qualquer coisa, mesmo as argumentações paradoxalmente opostas e contraditórias. Serve para ser publicada num blog “de direita” (e reacionário) quanto num “de esquerda” (e delirante), serve para orientar os cardeais católicos ou ensinar ideologia budista em um templo. Tanto faz.

O sentido, para mim, é claro: seja responsável, seja consequente, seja pertinente.

Ninguém quer a *sua* opinião, especificamente, particularmente. O que se quer é a opinião de *todas* as pessoas. Da mesma forma que o *seu* voto é totalmente irrelevante, mas o voto de *todas* as pessoas é fundamental.

É para essa dinâmica que precisamos estar atentos, é sacar que o um “curtir” é ao mesmo tempo “só um curtir” quanto um endosso coletivo a algo, a alguém, a uma forma de se pensar. Replicar uma piada é ao mesmo tempo “uma piada” quanto um reforço de um preconceito ou – pior – uma discriminação.

No ruído dos achismos, o saber se dispersa.

Réquiem

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foto: https://wallpaperstock.net/autumn-landscapes_wallpapers_38587_1280x1024_1.html

Os amigos bebem o morto. Morte trágica, suicídio. Ninguém entende o que aconteceu. Era jovem, com muitos anos pela frente; inteligente e sábio; bonito o suficiente para não causar repulsa quando tirava a roupa; saudável o suficiente para ser útil à sociedade. Ninguém entende o que aconteceu.

Faca no coração, disseram uns. Forma horrível de se matar, comentavam os insensíveis. Mas havia verdade ali. Perfurar o próprio peito não é o mesmo que pular da janela e apavorar-se por alguns segundos até o chão. Ou mesmo meter uma bala na cabeça, morte quase instantânea. Tampouco era injetar mistura de fertilizante, insulina e analgésicos, que leva a sono definitivo. A faca no peito é sinal de dor. De desespero dramático. De que qualquer coisa era melhor que a dor carregada, até mesmo a dor inadmissível no corpo. As pessoas se perguntam: “Que dor ele deveria estar sentindo para aguentar uma pontada dessa. Que dor tamanha e invisível. Que dor é essa, minha gente. Que dor.”

O morto está sendo bebido. Comido. Passam as pessoas com sanduíches e canapés. Copos e garrafas. O morto está na mesa da sala. Tradição antiga, caixão fechado. Só o rosto, sério, se vê. A dor do morto, não se vê. Ele não sente, não sofre. Falam dos órgãos a serem doados, do jazigo, do custo do velório e da família que fica. Das famílias. Plural. Ele sempre fora uma pessoa de muitos e muitas. Não cabia em si e menos ainda em suas próprias calças.

Choram os que lhe sentem saudades, conversam os que carregam memórias. O choro vem forte para uns, às vezes com as memórias. Não há quem não se lembre de coisas. A morte de alguém sempre desperta uma lembrança, ainda que de outra coisa, outra pessoa. Encontram-se amigos distantes, que há muito não se falavam. Encontram-se pessoas que nunca se viram antes, mas se transformam em íntimos instantaneamente. Assim como os amigos distantes, cuja intimidade se tornou apenas uma sombra do passado projetado no presente.

Não se bebe mais o morto. É a hora de queimar o que restou da carne. Queimar a carne que não serviu para ninguém mais seja por uso demasiado, agressão ou doença. Do pó viestes e outros clichês são repetidos sempre que uma história é terminada. Aqui não é diferente. Um amigo pergunta “por que ele fez isso?”. Pergunta inútil. Todos sabem o porquê, mas o fato pesa tanto em suas almas que precisa ser desafiado. Precisa de um outro alguém vir a reforçar ou iludir. A ilusão vem antes: “ele era fraco, não aguentou a si”. Outro vem com “quem sabe os desígnios de Deus é o Altíssimo”. Um terceiro chega mais perto da verdade “ele cansou”.

As famílias se perfilam. Choram as dores próprias, particulares. Os filhos choram sem entender. A mais velha apenas se dói. É espelho que ela vê ali. Teme não por futuro abreviado, mas pelo tempo que irá carregar-se. O do meio chora porque todos choram e tristeza é tempestade que estremece todas as casas. Não há teto que  resista, janela que não se feche. Essas goteiras são infinitas. O mais novo chora porque chorar é a única língua que  conhece. O choro é a sua fome, sede, falta e mundo. Chora porque todos choram e, anos à frente, chorará cada um dos que ali estavam presentes. Chora porque está condenado a chorar até o último se for.

Chora porque não é, nunca o deixaram ser.

Cada um herdou do morto uma das dores que carregava; cada um dos filhos herdou uma dor; cada amigo, cada conhecido, cada desconhecido pegou sua semente de dor e plantou em suas almas. Em alguns virará rama baixa, bicho rasteiro; em outros  brotará em árvore inteira, em copa que sombreará tudo. Em poucos, será apenas rastro de história.

Este é o testamento.

E o morto? Nada diz. Virou o retrato do desespero, da desesperança, da desilusão. É essa imagem que se pendura no quarto à noite e assombra os que ainda insistem em viver. Ele observa o grande nada e com ele se funde. Finalmente o choro que o atormentava se calou.

Queima-se o cadáver sem dó.

Diariamente

Minha melancolia começa sempre com o que não foi vivido, no que nunca foi dito, no arrependimento do gesto não feito, nos fins. Aí eu me entrego, no sono, às coisas que poderiam ter acontecido e fico bem. Deixo o torpor me tomar e me auto-dopo com histórias e causos sem forma, cor, voz ou definição. Viro só um saco de emoções liquefeitas que boia num mar inconsciente.

É difícil levantar da cama, encarar o sol, sorrir. O peso na alma verga qualquer vontade de fazer, mover, agir. Mas a gente levanta porque está quente demais, porque a sede, a fome, a vontade de ir no banheiro, o nosso amor pede para levantar, para fazer compras, para falar, para segurar um pouco do seu peso (porque às vezes a gente carrega coisa demais conosco) e a gente atende a tudo. Atende, sorri, enfrenta, carrega. E assim se dá a normalidade da coisa. Saímos daquele mar, leves, pesados, profundos.

A melancolia termina nessa hora de pagar as contas da vida, de levantar da cama e encarar o moedor de carne humano em que a gente se mete, no momento em que reconhecemos que não somos só nós no mundo, que somos função, razão e motivo para outros. Ela se vai no momento em que a realidade grita. Sem essa rotina, sem esse malho na mente, ela não tem fim.

Sundown, yellow moon, I replay the past
I know every scene by heart, they all went by so fast
If she’s passin’ back this way, I’m not that hard to find
Tell her she can look me up if she’s got the time.

Bob Dylan

Starter

Tenho diversos rascunhos de histórias. Plots, conceitos, cenários. O início de cada uma delas é muito claro para mim, mas o fim… o fim me escapa sobremaneira.

Isto é uma das coisas que sempre me incomodaram quando escrevia meus contos e crônicas. O tema era fácil, as personagens também mas o fim sempre me iludia, pulava fora da página. Aí eu matava a história e fim de papo, bola pra frente.
Hoje tive um insight bobo.

Que sou uma pessoa de inícios, já sabia há anos. Sou ótimo para planejar e estruturar conceitos, projetos, negócios e etc. Sou bom também para colocar no ar as coisas, desde que com o suporte devido de quem me contrata para os projetos (ou com a ajuda dos amigos e colegas), mas a entrega final, o encerramento das coisas, o desligamento, sempre é difícil.

Não é uma questão de apego. Acho que sou bem pouco apegado às coisas e ideias (apesar de, paradoxalmente, ser cabeça dura) mas de reconhecimento dos términos. Eu tendo a esticar a piada para além da risada e isso dificilmente dá certo.
Um outro ponto é de dar sentido às coisas. Apesar da vida ser caótica e com quase nenhum sentido para nada – além daquele que criamos para nós mesmos – uma história precisa de uma guia, uma ideia, uma mensagem de alinhamento em algum momento de sua narrativa. Acho que passei tanto tempo da minha vida tentando desconstruir isso, essa necessidade de fazer sentido, que desaprendi a criar o fim nas minhas histórias.
Vamos ver se reaprendo esse processo. Vai que…

Poeminha quase zen

Sinto a raiva que nasce anciã.
Ela chega, poderosa, e se faz presente.
Escuto, reconheço, aceito e sigo.
Ela é parte de mim.

Percebo a alegria que vem distraída.
Ela chega, vitoriosa, e se faz coerente.
Escuto, reconheço, aceito e sigo.
Ela também é parte de mim.

Vejo a tristeza que nasce toda manhã.
Ela chega, espaçosa, e se faz torrente.
Escuto, reconheço, aceito e sigo.
Ela é boa parte de mim.

Recebo a saudade que se faz dividida.
Ela chega, desastrosa, e se deita languidamente.
Escuto, reconheço, aceito e sigo.
Ela diz quem eu fui para mim.

Abro as portas para a ansiedade, terçã.
Ela chega, espalhafatosa, e se faz onipotente.
Escuto, obedeço, aceito e sigo.
Ela é o todo de mim.

Enterro à noite a esperança, desiludida.
Ela chega, pesarosa, e se faz ausente.
Escuto, acolho, abraço e sigo.
Ela é o início de mim.